Surto de doenças infecciosas está ligado ao desmatamento

Relação entre os temas foi apontada em relatório da ONU mas especialista diz que os surtos também aparecem devido a outros fatores ambientais, como o aumento das temperaturas

Todas as ações causam consequências, sejam boas ou ruins. Nas últimas décadas, embora o homem tenha conseguido avanços que facilitem a vida urbana, também provocou efeitos que resultam riscos cada vez maiores ao meio ambiente e a saúde humana. Um exemplo é o desmatamento, que está entre os principais motivos para o surto de doenças infecciosas, segundo o Relatório de Biodiversidade, da Organização das Nações Unidas (ONU).

Das enfermidades, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que ao menos 50% da população mundial corre o risco de se contaminar com doenças transmitidas por mosquitos, chamadas de arboviroses como malária, febre amarela, dengue, chikungunya e zika. No Brasil, o Ministério da Saúde (MS) acredita que o número de casos dessas enfermidades tenha dobrado em 30 anos.

Segundo o biólogo, doutor em fisiopatologia e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) - Instituto de Biociências do Campus São Vicente, Luiz Felipe Domingues Passero, os surtos também estão relacionados há outros fatores ambientais, como o aumento das temperaturas, o que facilita a circulação dos vetores.

“Quando o homem adentra a mata para extrair e abrir áreas inexploradas, quebra o equilíbrio ambiental e gera o risco de contato com insetos que se alimentam de sangue, levando a doença aos humanos quando volta do local”, explica o biólogo.

Mesmo que o desmatamento ocorra em áreas consideradas pequenas, o profissional informa que em escala global outros pontos também são explorados simultaneamente e somados as alterações climáticas, os vetores se reproduzem e se espalham mais rápido.

O comitê do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (em inglês, Intergovernmental Panel on Climate Change – IPCC) prevê que a temperatura aumente 2ºC até o ano de 2100. Domingues afirma que alguns efeitos já estão sendo sentidos e podem piorar se medidas não forem tomadas. “Com as alterações no clima, os vetores serão distribuídos a lugares que não circulavam antes e a possibilidade de inundações aumentarão os casos, como aconteceu em março em Moçambique com o ciclone Idai, que trouxe a malária”, alerta o biólogo, que ressalta, por exemplo, que o aumento do nível do mar fará que as migrações cresçam, gerando mais doenças. “Nosso cenário ambiental será de mal a pior e devemos fazer algo agora para que as futuras gerações não sofram.”

NA REGIÃO – Domingues avaliou como o desmatamento e as outras questões ambientais podem influenciar nas doenças infecciosas na Baixada Santista e Vale do Ribeira se destaca por ter áreas de mata. “O local contribuiu para parte dos números de febre amarela no Estado, já no Litoral Sul e Norte há casos de dengue e de leishmaniose viceral, algo que está se tornando perigoso e sem grandes movimentos para evitar o crescimento.”

Para o biólogo, é preciso que haja implantação de políticas públicas mais eficazes. Além disso, a população pode contribuir com atitudes simples, como não jogar ou deixar lixo na rua, colocar areia em vasos de planta e evitar água parada para não gerar criadouros dos mosquitos transmissores e denunciar aos órgãos públicos áreas invadidas, para inibir o desmatamento.

21/10/2019

Texto: Larissa França

Foto: Divulgação

 

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